Wednesday, December 05, 2007

Ignoremos, pois, o que é importante

Há posições que se assumem por omissão e o "Voltemos, pois, ao que é importante", escrito pelo Paulo Pinto Mascarenhas após os últimos posts do Tiago Mendes, acaba por ser revelador sobre aquilo que aparentemente interessa a um auto-denominado "projecto moderno de direita virado para o futuro" (acho que é assim que a Atlantico se auto-denomina).

O Tiago foi acusado de ser caceteiro, impertinente, intelectualmente desonesto, mal educado, deselegante e - supremo dos pecados - chato. Que o Tiago é um chato do caraças já eu sabia: conheço-o há mais de dez anos e até já o expulsei de um blog; mas o Tiago não escreveu aqueles posts para ser o rei da comédia, nem pretendia divertir o pessoal. A piadola e a reacção de ironia enfadada têm sempre a sua graça, mas não deixam de ser uma forma, de assobiar para o lado - legítima, entenda-se; mas comprometedora.

Intelectualmente desonesto é coisa que o Tiago certamente não é; e não o sendo, tudo o que escreveu não podia deixar de ser "violento" e "deselegante". Digo isto porque a legitimidade do tom não pode ser independente da substância das criticas - perfeitamente justificadas, na minha parcial opinião - que dirigiu ao André Azevedo Alves. Não interessa se o AAA é um brilhante intelectual e académico - sobre isto temos os inexcedíveis e comoventes encómios do Rui A., no Portugal Contemporâneo. Mas não é isso que está em causa. O André não foi acusado de ser uma fraude, só quem não quis ler o que o Tiago escreveu pode pensar semelhante coisa.

O simples facto de a maioria das pessoas que reagiram negativamente ás críticas do Tiago terem ignorado a substância daquilo que foi realmente escrito, revela que uma parte significativa da Direita a que o Tiago pensava pertencer não está interessada em clarificações ideológicas e debates internos estruturais. O que verdadeiramente interessa é enxovalho fácil, repetitivo e, demasiadas vezes, alarve à Fernanda Câncio, Daniel Oliveira, e à "extrema-esquerda" em geral. Barricadas e auto-complacências à parte, o Tiago parece ter atingido parte dos seus propósitos: com algumas excepções, a tal Direita moderna definiu-se por omissão. Se o que interessa é defender a honra e o bom nome do André, está tudo dito. O "pluralismo e a não-organicidade" saem vencedores à custa da supressão da crítica. Pelos vistos não interessa a descupablização sistemática do Pinochet, de Salazar, da pena de morte (num post recente no Insurgente) e de tudo o resto que o Tiago aponta (as tais ideias que causam vómitos e que metem nojo). O problema é o Tiago e as suas impertinências que vieram pertubar a pacatez da Direita Moderna e de Futuro. A ironia de tudo isto é ver parte da direita a praticar uma forma evidente de politicamente correcto e de tolerância cúmplice, o mesmo que critica na famosa esquerda-relativista-pós-moderna. Acho extraordinário.

Num comentário a um post onde o Pedro Marques Lopes elogia o Tiago, o Pedro Lomba escreve: Gostava de dizer que o Tiago é uma das boas razões (e eu que sou um individualista radical) que me fazem continuar a querer pertencer a um grupo a que temos vindo a chamar “a direita” mas a que, se calhar, devíamos chamar outra coisa . Foi por ter achado que se calhar era melhor chamar outra(s) coisa(s) que os posts do Tiago foram importantes e clarificadores. O silêncio perante a pergunta que o Tiago coloca no seu chatíssimo post de 3058 palavras. O suficiente para seis páginas A4, não deixa de ser a resposta que o Tiago procurava.

Friday, November 30, 2007

Conservapedia: An Encyclopedia from the conservative perspective

"For those who haven’t heard, American conservatives have decided to put together their own version of Wikipedia, Conservapedia, to counter its leftwing bias. Here’s a list of the most frequently viewed pages and their number of hits:

1. Homosexuality‎ [2,011,173]
2. Main Page‎ [1,974,521]
3. Homosexuality and Hepatitis‎ [518,847]
4. Homosexuality and Parasites‎ [479,807]
5. Gay Bowel Syndrome‎ [445,848]
6. Homosexuality and Promiscuity‎ [423,159]
7. Homosexual Couples and Domestic Violence‎ [374,753]
8. Homosexuality and Gonorrhea‎ [332,659]
9. Homosexuality and Anal Cancer‎ [295,222]
10. Homosexuality and Mental Health‎ [294,872]

I kid you not, really, go to the site. I make it a policy not to link to such sites, but you will find this list under site “statistics” on the left of the screen. This seems like an appropriate time to quote a passage from Hume’s Enquiry Concerning Human Understanding on association:
IT is evident that there is a principle of connexion between the different thoughts or ideas of the mind, and that, in their appearance to the memory or imagination, they introduce each other with a certain degree of method and regularity. In our more serious thinking or discourse this is so observable that any particular thought, which breaks in upon the regular tract or chain of ideas, is immediately remarked and rejected. And even in our wildest and most wandering reveries, nay in our very dreams, we shall find, if we reflect, that the imagination ran not altogether at adventures, but that there was still a connexion upheld among the different ideas, which succeeded each other. Were the loosest and freest conversation to be transcribed, there would immediately be observed something which connected it in all its transitions. Or where this is wanting, the person who broke the thread of discourse might still inform you, that there had secretly revolved in his mind a succession of thought, which had gradually led him from the subject of conversation.
The key point for Hume (and Freud), of course, is that if one idea occurs to you in relation to another idea, it was your mind that drew that connection. I wonder if there’s any particular reason these conservatives are thinking of homosexuality so much, and in particular of these sex acts? On the one hand, there is the sad obsession with particular sex acts. On the other hand, there is the hair-raising association of these sexual orientations immediately with disease, insects, parasites, etc. Such metaphorics to describe another group turned out real well in Rwanda and Germany"

via Larval Subjects

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Wednesday, September 26, 2007

‘When a state fights its political enemy in the name of humanity, it is not a war for the sake of humanity, but a war wherein a particular state seeks to usurp a universal concept against its military opponent. At the expense of its opponent, it tries to identify itself with humanity in the same way as one can misuse peace, justice, progress, and civilization in order to claim these as one’s own and to deny the same to the enemy.’

‘To confiscate the word humanity, to invoke and monopolize such a term probably has certain incalculable effects, such as denying the enemy the quality of being human and declaring him to be an outlaw of humanity; and a war can thereby be driven to the most extreme inhumanity.’

Carl Schmitt, The Concept of the Political

Thursday, August 30, 2007

(...)

"Reflection shows us that our image of happiness is thoroughly colored by the time to which the course of our own existence has assigned us. The kind of happiness that could arouse envy in us exists only in the air we have breathed, among people we could have talked to, women who could have given themselves to us. In other words, our image of happiness is indissolubly bound up with the image of redemption. The same applies to our view of the past, which is the concern of history. The past carries with it a temporal index by which it is referred to redemption. There is a secret agreement between past generations and the present one. Our coming was expected on earth. Like every generation that preceded us, we have been endowed with a weak Messianic power, a power to which the past has a claim. That claim cannot be settled cheaply"

(...)

"Whoever has emerged victorious participates to this day in the triumphal procession in which the present rulers step over those who are lying prostrate. According to traditional practice, the spoils are carried along in the procession. They are called cultural treasures, and a historical materialist views them with cautious detachment. For without exception the cultural treasures he surveys have an origin which he cannot contemplate without horror. They owe their existence not only to the efforts of the great minds and talents who have created them, but also to the anonymous toil of their contemporaries. There is no document of civilization which is not at the same time a document of barbarism"

(...)

Walter Benjamin, Theses on the Philosophy of History

O evolucionismo, que é invocado por alguns para defender teses liberais, tende a absolutizar o presente e ignora o dever e a responsabilidade da memória. O presente é apresentado como algo que triunfa sobre o que o precedeu e que não lhe deve nada; justifica-se a si próprio na sua simples existência. O passado não existe senão como um meio. E com isso ignora-se que "
There is no document of civilization which is not at the same time a document of barbarism".

Tuesday, August 28, 2007

"When does CPR become necrophilia?"

No entanto, e no género normalidades disfuncionais ou desconstruções do subúrbio, O Sete Palmos de Terra parece-me estar a milhas desta nova série.

Entrevista ao Gualter Batista

Não deixando de censurar a acção dos Verdes Eufémias em Silves, considero que Mário Crespo teve uma péssima prestação na entrevista feita a Gualter Batista. o porta voz do grupo Verde Eufémia. É que aquilo foi tudo menos uma entrevista. O jornalista limitou-se - e não é pouco - a utilizar o entrevistado para reforçar aquilo que ele já tinha decidido ser a interpretação da acção política em causa: um acto de vandalismo puro, e algo inaceitável numa democracia. Mas se era para instrumentalizar o entrevistado, mais valia não o ter convidado. O Gualter - que na minha opinião nem esteve mal - até ia tentando articular a sua posição, mas de nada lhe valia, pois a opinião pré-definida do jornalista sobrepunha-se sempre à pseudo-entrevista. Dois exemplos: a questão do interesse público; e a violência do acto. Em relação à primeira, a argumentação de Crespo é desonesta, porque o próprio enquadramento do problema invalida a possibilidade de qualquer acto de desobediência civil. Quanto à questão da violência, a manipulação foi total. É óbvio que a actuação dos verdes eufémias envolve uma dimensão irredutível de violência - destruir a propriedade de alguém não é propriamente um acto pacífico. Agora focar-se obsessivamente num pontapé de uma miuda, como se isso ilustrasse a violência da manifestação, é - parece-me óbvio - um acto pura desonestidade.
Em vez de questionar esta acção política, contrastando-a com outras mais produtivas para a causa, em vez de insistir na cobardia da cara tapada e na necessidade de quem pratica um acto de desobediência civil acarretar com as responsabilidades jurídicas do acto, Mário Crespo alinhou com a histeria do eco-terrorismo - haja pudor! - e na diabolização do grupo do qual Gualter Batista é porta-voz. Tem todo o direito. Mas então devia ser coerente e optar por não convidar ninguém do grupo. É que perante meros delinquentes a única resposta aceitável é a justiça e os tribunais.

Monday, August 27, 2007

O Ezequiel diz-me sempre que eu estou enredado em linguagens de pertença e de totalidade, e que esse vocabulário é estéril. Se é estéril não sei. Mas que talvez seja uma condição ontológica que não
se pode simplesmente abolir por questões de gosto, parece-me incontornável. Podemos escolher ignorá-lo, mas aí temos sempre que lidar com o return of the repressed. É a causalidade do destino. Podemos reagir com enfado, mas não lhe podemos escapar. Acho eu.

Friday, August 24, 2007

mediações

O Larval Subjects é um excelente blog - em estrangeiro - que justifica visitas regulares. Um dos últimos posts que li trata da "estupidez" do pensamento que não reconhece os elementos de mediação envolvidos na própria noção de experiência de algo.

No início do post deparamo-nos com o seguinte comentário ao pensamento de Hegel:

…the Understanding– what passes as ‘common sense’ –is, at first, oblivious to the mediateness of concepts. “The understanding determines and holds the determination fixed.” Accordingly, the unmediated… becomes a self-identical entity… because the immediacy of the concept is taken as the whole truth of it. The understanding therefore “abstracts” a part and calls it the whole. Abstraction “means to select from the concrete object for our subjective purposes this or that mark without thereby detracting from the worth and status of the many other features left out of account.”
O elemento principal do pensamento de Hegel talvez a rejeição da noção de relações imediatas, e isto remete-nos necessariamente para um conceito de mediação - uma espécie de relação constitutiva e inivitável da parte com o todo. Por isso, individualizar algo envolve sempre um processo de repressão e cegueira: individualizar é sempre distorcer - e esquecer. Para ilustar este fenómeno o autor recorre mais uma vez a Hegel:

(...) A murderer is led to the place of execution. For the common populace he is nothing but a murderer(...) One who knows men traces the development of the criminal’s mind: he finds in his history, in his education, a bad family relationship between his father and mother, some tremendous harshness after this human being had done some minor wrong, so he became embittered against the social order — a first reaction to this that in effect expelled him and henceforth did not make it possible for him to preserve himself except through crime. — There may be people who will say when they hear such things: he wants to excuse this murderer! After all I remember how in my youth I heard a mayor lament that writers of books were going too far and sought to extirpate Christianity and righteousness altogether; somebody had written a defense of suicide; terrible, really too terrible! — Further questions revealed that The Sufferings of Werther [by Goethe, 1774] were meant.

This is abstract thinking: to see nothing in the murderer except the abstract fact that he is a murderer, and to annul all other human essence in him with this simple quality(...)

A critica da noção de conhecimento ou reconhecimento imediato revela a deficiência existente em qualquer processo de individualização. Para o autor importa denunciar falsas relações imediatas (o pensamento liberal do género contractual é desta natureza) e o processo de esquecimento que lhes está implícito. Mas falta aqui qualquer coisa; é que mais do que denunciar o erro, importa explicá-lo. Se o esquecimento e a violência forem necessários e inevitáveis, a acção e pensamento humano tornam-se trágicos - é bom recordar que Aristóteles escreveu na sua Poética que a tragédia imita a acção humana. Esta é uma das conclusões do pensamento de Richard Rorty: depois de Hegel a filosofia só se redime na literatura (ou numa espécie de literatura, diria eu). Mas há quem discorde.

O Abrupto pelos seus fieis

“Deixai que venham a mim os meus leitores e não os impeçais, porquanto o Abrupto é para os que se lhes assemelham (mais ou menos). - Digo-vos, em verdade, que aquele que não receber o Abrupto como uma criança, nele não entrará.”

S. Pacheco, cap. X, vv. 13a 16.

O Abrupto dignifica a opinião do leitor, santificando-lhe o verbo.


Thursday, August 23, 2007

"Once upon a time (so one tale of modernity goes), the earth was an enchanted place. Rocks, trees, rivers, and rain pulsed with invisible but potent beings—specimens of what anthropologists have called mana, the basic force of the universe—as did the affairs of tribes and empires. Beholden to the whimsy or providential design of a pantheon of spirits and deities, the world of enchantment could be magically or prayerfully entreated. But with Protestantism, science, bureaucracy, and capitalism, the company of enchantment was evicted from the earth, and its dispossession defines modernity. As the natural and human sciences dispelled the world ofmystery, the prose of reason hushed the poetry of enchantment, and the remnants fled to the shadowlands of superstition, ignorance, and fantasy. Capitalism plays a major role in this venerable but contestable tale, encapsulated in Max Weber’s phrase “the disenchantment of the world”. In the course of unshackling production and exchange from moral and religious restrictions, capitalism anathematized the bestowal of sacral meaning on social relations and material objects. Once charged with the power to link us with mana or to bind together communities, things lost their souls as entrepreneurs transformed them into commodified wares. Avarice and calculation mandated indifference if not aversion to an enchanted order larger than human desires. Providential design became the laws of supply, demand, and comparative advantage. And if enchanted forces were respectfully supplicated, disenchanted forces could be profitably mastered, without humility or gratitude, through the incessant refinement of technological prowess. As the economist Robert Heilbroner has summarized the conventional wisdom, capitalism “is not sacred but secular” and “would be impossible in a sacralized world to which men would relate with awe and veneration(...)

[but] it was also a moral economy and a “sacralized world”, a mutable structure of symbols and ontological assumptions fraught with desire for a selfhood redeemed, a common good, even communion with divinity. Far from being an unambiguous agent of disenchanted secularity, capitalism might be best understood as a perverse regime of the sacred, an order of things bearing powerful and unmistakable traces of enchantment."


The Enchantments of Mammon: Notes Towards a Theological History of Capitalism, Modern Theology 21:3 July 2005, Eugene McCarraher

Tuesday, August 21, 2007

Dogmatismos essencialistas

Musil a caminho

É só para avisar o Luís que o seu pode ser que pegue tem pernas para andar. O João Barrento anda a traduzir o Homem Sem Qualidades, e o primeiro volume sai já em 2008. Entretanto vão sendo disponibilizados excertos da coisa:

(...) Num tecido social irrigado por energias, todos os caminhos levam a um fim bom em si, se não hesitarmos e reflectirmos por muito tempo. Os objectivos estão próximos; mas também a vida é curta, e assim se obtém o máximo proveito, e de mais não precisa uma pessoa para ser feliz: porque aquilo que se alcança é que dá forma à alma, ao passo que aquilo que se persegue sem o atingir a deforma. A felicidade depende muito pouco daquilo que se quer, realiza-se apenas com aquilo que se alcança. Para além disso, a zoologia ensina-nos que um número de indivíduos limitados pode constituir um todo genial

(...)Mas, por mais dedicados que sejamos, não podemos evitar que uma sensação desagradável se apodere de nós, como se tivéssemos ultrapassado o objectivo ou metido pelo caminho errado. E um dia chega aquela necessidade irresistível e premente: descer! saltar do comboio! Uma nostalgia de sermos travados, de não progredir, de ficar parados, de regressar a um ponto antes do desvio errado! E nos bons velhos tempos em que ainda existia o império austríaco, era possível, numa situação dessas, abandonar o comboio do tempo, sentar-se num comboio normal de uma linha normal e voltar a casa

Parallax view via Verde Eufémia

"Parallax can be defined as the apparent displacement of an object, caused by a change in observational position. Zizek is interested in the "parallax gap" separating two points between which no synthesis or mediation is possible, linked by an "impossible short circuit" of levels that can never meet"

Excerto de um comentário sobre The Parallax View, um livro de Slavoj Zizek

A série de posts do Paulo Gorjão sobre o caso Verde-Eufémia intitula-se o caminho mais rápido para descredibilizar uma causa.
Já o Insurgente escolheu o tema do eco-terrorismo, legitimando dessa forma a sua contra-causa - a ideia de que o movimento ecológico não passa de um avatar do esquerdismo ressentido anti-capitalista, etc...

Estas duas abordagens podem ser utilizadas para ilustrar o fenómeno que Zizek chamou de parallax view: a forma como o mesmo acontecimento é abordado por pessoas diferentes
- os títulos revelam o mesmo acontecimento a partir de dois ângulos de visão - acaba por ser uma confirmação prática de que a relação não mediada com a verdade dos factos é uma ilusão; o perspectivismo, pelo menos como ponto de partida, é irredutível. Aqueles que tanto criticam os famosos "pós-modernistas" por terem decretado o fim da sacrossanta verdade, acabam, ironicamente, por incorrer numa contradição performativa, invalidando a sua própria posição.

Monday, August 20, 2007

Da credibilidade


Jardim diz que causas fracturantes do Governo são "deboche" e "degradação"

Os dois Arrojas

"Pensamento sem intuições são vazios; intuições sem conceitos são cegos"

E com este principio aparentemente singelo, Kant colocou a metafísica dogmática que o Arroja deseja e o empirismo gentle-mannered do céptico David Hume em cheque. Depois disto, a filosofia nunca mais foi a mesma. Não perceber as implicações da filosofia crítica de Kant para uma certa forma de questionar, força o iconoclasta-politicamente-incorrecto (o que para alguma direita é uma nova forma de beatude) Arroja a cair no rídiculo e a revelar toda a sua ignorância.

Mas sejamos mais caridosos com o Professor. Ele não é bem o estudioso da tradição filosófica; ele é o grande iconoclasta, uma espécie de Karl Marx da direita conservadora que desmascara verdades distorcidas. O Arroja inventou um novo materialismo que revela a verdadeira natureza do pensamento de certos filósofos. O objectivo cabalistico de Arroja é mostrar que tudo o que ameaça a Civilização que ele tanto estima é produto de interesses judeus, ateus e (cereja no topo do bolo) gays! Para Arroja a única Verdade que interessa, e aquela que orienta todo o seu pensamento, é um dogma maltratado por interesses pouco recomendáveis que se mascaram de filosofia. Ele talvez não seja nem ridículo nem ignorante, mas apenas anti-semita, intolerantemente crente e homofóbico.

Friday, August 17, 2007

Matar Deus 3

...e lidar com isso

"Lanço por isso um repto: os comunistas que ainda restam nos outros países do mundo, a começar por Portugal, não aceitariam trocar de lugar com eles? Isso sim, seria coerência revolucionária"

Tiago Barbosa Ribeiro, Kontratempos

Marx e religião

O Vítor critica-me por eu não referir Marx sempre que falo da religião. E tem toda a razão. Por isso, vou tentar dizer alguma coisa sobre este tema em poucas palavras. Considero a crítica da religião feita por Marx francamente mais interessante do que as vacuídades científicas sobre o assunto. No entanto, e em antecipação, considero o projecto intelectual de Marx um falhanço. Mas é um falhanço que contém fragmentos de verdade. E são estes dois elementos em conjunto - o erro e a verdade, a impossibilidade e a necessidade - que, na minha opinião, constituem o principal legado do seu pensamento.

Ao contrário do tipo de discurso simplista que critico no post anterior, Marx percebe que a "ilusão" tem uma "causa" e que não é suficiente apontar ou denunciar o "erro", mas "tratar " ou corrigir aquilo que o motiva. Dizer que a religião é o ópio do povo não basta; é preciso entender a necessidade de ópio e como eliminá-la. Para se lançar neste projecto, Marx baseia-se e transcende o que Feuerbach diz sobre Deus. Para este último, existe uma inversão entre sujeito e predicado, onde Deus não é mais do que uma projecção dos poderes humanos divinos. Marx critica Feuerbach por este não se ter libertado por completo do idealismo e por oferecer apenas uma interpretação crítica de um fenómeno sem atender ás suas verdadeiras motivações. Daí a famosa 11ª tese sobre Feuerbach: "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo". Este corte radical implica passar de um idealismo que deixa tudo como está para uma filosofia materialista da praxis, algo que considera o homem na sua condição material. É a praxis que constitui a realidade última e determinante, opondo-se ao idealismo - que não é mais do que uma abstracção "causada" por uma realidade prática em contradição. A realidade está em contradição porque o homem está alienado da sua essência de produtor criativo. É esta alienação prática que explica a necessidade da religião: o homem separado dos outros e do produto do seu trabalho está alienado de si mesmo. Abolir Deus requer uma apropriação dos poderes alienados do homem; algo que corresponde à reconcliliação do homem com o homem e destes com os frutos do seu trabalho.

A crítica de Marx à religião pressupõe que a realidade prática pode ser alterada, o que é verdade; mas falha porque pensa que podemos alterá-la instaurando um mundo perfeitamente reconciliado, o que é um ideal prometeico irrealizável. Pretender a emancipação total da humanidade - divinizar a humanidade - não é concebível sem contradições - condição necessária para a individualidade e pluralismo. Como escreveu Steiner, a Emancipação Total corresponde à nostalgia do Absoluto, algo inacessível ao homem. O problema é que não existe nenhum universal que não esteja contaminado de particularidade. De outra forma: a contradição e a Histórica são o nosso destino e estão para ficar.

Com isto não pretendo dizer que devemos ignorar Marx. A solução avançada para o enigma da história falhou, mas o impulso inicial mantém-se válido. A necessidade e impossibilidade conjunta do Absoluto são características da modernidade. O que o projecto de Marx mostra é que a totalidade sem conflito é inultrapassável. Ou seja: todas as utopias são parciais. Isto impede o Homem Novo, mas não legitima o velho. Back to politics

Thursday, August 16, 2007

Verdade(s)

"Será razoável acreditar em Deus sem provas"


"O descrente põe é em causa que tais sentimentos sejam adequados, por pôr em causa a existência do objecto de tais sentimentos. O que está em causa não é a existência de tais sentimentos, mas a sua razoabilidade e adequação"


A perspectiva do Desidério sobre a religião será sempre redutora porque ele só concebe uma forma de Verdade que distorce a nossa relação com este fenómeno. Ao transformar a questão religiosa numa espécie de problema cientifico (ou análogo à ciencia), o seu questionar afasta-nos da experiência religiosa e da questão do sagrado -em dois posts anteriores (1 e 2) falei de outras formas de crítica que evitam esta simplificação e que me parecem mais interessantes (pensadores cristãos como Ricoeur ignoram o tipo de crítica do Desidério, mas levam alguém como Nietzsche ou Freud muito, mas mesmo muito, mais a sério)

O conceito de Verdade que Desidério invoca e assume -ele nunca o problematiza nem o põe em questão- e depende de uma relação existente -assumida, nunca problematizada- entre um sujeito e um objecto. A relação entre os dois -a síntese que permite falarmos de um sujeito com pretenções ao conhecimento e o objecto passível de conhecimento- é entendida através da cognição. Por outras palavras: o sujeito existe e tem uma relação exterior ao objecto e relaciona-se com ele através de representações que se pretendem correctas. O telos do sujeito cognitivo é a Verdade, entendida como representação correcta da realidade. Por isso o sujeito é interpretado -falsamente- como sendo um observador desinteressado que não pertence à realidade que objectifica. Ora isto representa um ponto de partida do qual a ciência depende para existir, mas que distorce a nossa relação primordial com a realidade. É útil para algumas práticas (ciência), mas não esgota a nossa relação com o mundo, e veda-nos (cega-nos) o acesso a certas realidades. A dualidade sujeito-objecto - e as formas de questionar que decorrem desta relação - não pode ser ontologizada e transformada numa relação básica primordial da qual todas as questões de verdade ou significado dependem. Não é só o fenómeno religioso que é distorcido, mas também experiências como a arte, a ética (Aristóteles já tinha defendido este ponto e na sua Ética diz que a verdade das questões práticas é de uma natureza distinta quando comparada com questões de conhecimento teórico) ou a filosofia política. O que desaparece são as experiências e as tradições históricas através das quais o homem se entendeu e interpretou a si mesmo. A Verdade nestas áreas não se obtém por meio de prova ou demonstração, porque a nossa relação com estas realidades não é do tipo sujeito-objecto. Nós não nos relacionamos exteriormente com estes domínios; nós pertencemos-lhes, pois o homem sempre se interpretou e se constituiu através delas.

O que desaparece do pensamento do Desidério é a relação primordial de ser-no-mundo (o facto do Desidério não parecer dar grande importância a pensadores como Hegel, Kierkgaard ou Heidegger pode explicar esta lacuna) e as questões existenciais associadas a esta pertença fundamental. O que desaparece do pensamento do Desidério é o Homem enquanto problema - não teórico, mas existencial e prático. Quem começa o seu pensamento com o facto do sujeito que pergunta e conhece, chega tarde de mais. Para o Desidério ser consciente é um facto, um ponto de partida. Noutras tradições, ser consciente não é um facto mas uma tarefa prática à qual respondemos existencialmente. Por tudo isto eu não posso deixar para olhar para a filosofia praticada pelo Desidério como uma forma lamentável de empobrecimento e definhamento intelectual.

"O ideal da ciência é obter aquilo a que chamei 'síntese computacional' dos fenómenos' ou seja, reproduzir, a partir de equações ou de programas de computadores, um espécie de duplo da realidade empírica"

Excerto de entrevista a Jean Petitot, citado Maria Filomena Molder, em A Imperfeição da Filosofia

"If someone was simulating me, I'd get a lawyer and sue them for ontological incompetence"

aqui

Eros filosófico

"Pois aquele que ama está num embaraço, não sabe o que faz, and à procura. Não é esta a maneira menos decisiva de justificar a natureza incompleta da filosofia - termo cujo significado nunca se fixou definitivamente -, tarefa intrigante, que leva de cada vez a cabo uma inquirição de identidade, desde sempre grande motivo de escárnio e escândalo. Com efeito só se pode amar aquilo que não se possui. A imoderação própria da actividade filosófica tem a ver com a natureza do amor"

"Considerar matéria de riso ou coisa incompreensível que um homem escolha como seu animal futuro uma besta de pequeno porte, ou que um homem venere a floresta de carvalhos...implica, no primeiro caso, desfigurar a pergunta pela identidade, no segundo, a recusa de ter antepassados"

"Ser separado, experimentar a separação e tentar preenchê-la, esse abismo glorioso e terrível é o oceano de onde nasce Afrodite"

"Estabelecer narrativamente uma geneologia, contar uma história, um mito, era uma forma de metamorfose que reconhecia no seu objecto um segredo para sempre guardado, ao mesmo tempo que evita qualquer esvaziamento nas descrições indutivas, i.e. qualquer forma de explicação positiva"

"eros é um movimento que tende para diante, força anímica e cósmica que liga e reúne todos os seres e cada ser consigo mesmo. O amor é um mover-se para a frente que tem a sua sede na alma e ressoa por todo o universo, um obscura antecipação que procura sem descanso confirmar-se: é, por assim dizer, o futuro da alma"

"Dessa aspiração do mutilado pela transcendência nasceu a metonímia, a figura da nossa imaginação em que o todo se apresenta por uma parte, à qual está sempre prometida a reunião com o todo"

"Mistério e enigma, um revela-se e comunica-se, o outro decifra-se. Um misterio não pode ser analisado, mas comunicado. Um enigma pode ser analisado"

Maria Filomena Molder, A Imperfeição da Filosofia, Relógio de Água

Este livrinho de Maria Filomena Molder é uma verdadeira pérola e uma introdução fascinante à actividade de filosofar. Ao contrário de outros - aqui incluo alguém como o Desidério Murcho do De Rerum Natura -, a autora não considera a filosofia como sendo uma técnica, nem algo que nos ensina a pensar, ou a ganhar competência em coisas como a lógica ou argumentação. A filosofia pode fazer ou contribuir para tudo isso, mas só indirectamente, pois tal não é a sua "finalidade". Aliás, se há algo que distorce o entendimento da filosofia são considerações instrumentais, tão em voga nos nossos tempos.

Uma actividade como a filosofia não pode ser simplesmente analisada, decomposta em proposições analíticas e "ensinada". A natureza da transmissão e iniciação filosófica assemelha-se mais à sedução. Por isso, a autora não define nem descreve o que é a filosofia; ela comunica e transmite uma intimação, um desafio. A filosofia não é uma demonstração de uma verdade, ela é uma sugestão que depende sempre do reconhecimento. Isto é algo que requer um entendimento cumplice. Só partilhando o fascínio se pode entender o que a filosofia é.

Friday, August 10, 2007

Matar Deus 2

"within Hegel’s framework, critique is never abstractly negative - it never moves through the simple and direct rejection of what is being criticised. Instead, critique moves, in the first instance, precisely through a recognition of the necessity of what it criticises. Critique thus first seeks to make sense of its target - to move beyond the object of critique by first grasping it, and then demonstrating how that object is inadequate to a certain standard (generally, a standard that can understood to be immanently implied by the object itself, so that the target of critique can be criticised for the way in which it fails to achieve its own goals…)."

aqui

Matar Deus

"God is dead. God remains dead. And we have killed him. How shall we, murderers of all murderers, console ourselves? That which was the holiest and mightiest of all that the world has yet possessed has bled to death under our knives. Who will wipe this blood off us? With what water could we purify ourselves? What festivals of atonement, what sacred games shall we need to invent? Is not the greatness of this deed too great for us? Must we not ourselves become gods simply to be worthy of it? There has never been a greater deed; and whosoever shall be born after us - for the sake of this deed he shall be part of a higher history than all history hitherto."

Nietzsche, Thus Spoke Zarathustra


Acho que foi Nietzsche que disse que não bastava matar Deus mas também o lugar que ele ocupava. Ora se Dawkins, Dennets e companhia pensam que a ciência atingiu o primeiro objectivo, não me parece que tenham dedicado muito tempo a pensar no segundo. E deviam, porque o lugar deixado vazio não é um optional extra. Mas duvido que o saibam fazer: o ateísmo destes senhores é pobre e dedica-se apenas à negação. Não basta explicar porque é que algo é errado ou não faz muito sentido uma vez que a ilusão contém sempre alguma verdade. O tipo de crítica praticado por Nietzsche ou Freud distingue-se deste ateísmo científico e parecem-me mais interessantes. Resta saber se resultam. E como.

Thursday, August 09, 2007

Uma falácia dentro de uma imprecisão mascarada de uma evidência

"Se a orientação sexual é um fato tão natural como a
pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir
orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da
música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe
escolha. Na sexualidade, não há escolha"

João Pereira Coutinho, citado por Patrícia Lança (e algo dito e repetido por grande parte da blogoesfera de direita sempre que se fala de questões identitárias)

A passagem citada é bastante falaciosa. O problema principal passa por confundir orientação com identidade. Concordo que a orientação sexual é um facto, mas o que é politizado não é tanto a orientação mas a identidade sexual associada a esta; e esta está longe de ser um facto. A identidade deve ser vista sob uma dinâmica de reconhecimento que é eminentemente social -ou seja, um processo dialógico- público e dinâmico. A problematização da identidade é uma disputa simbolica que existe numa relação complexa com outros elementos e inseparável de questões de poder. Qualquer sociedade institui paradigmas públicos de normalidade que ao serem afirmados (e favorecidos por determinadas práticas e instituições) reprimem outros. A lógica pública, se quiserem, contém sempre relações de inclusão-exclusão. O que a modernidade ou pós-modernidade veio pôr em causa foi a naturalização de certas ordens hegemónicas e suas exclusões particulares (não todas, obviamente -o é proibido proibir já lá vai). Aquilo que se pretendia como sendo algo meramente descritivo, inscrito na ordem das coisas e beyond discussion, deixou de o ser.

Podemos ligar isto à problemática da identidade gay e da sua politização. O que os gays tendem a fazer é contestar determinada ordem simbólica vigente (é ok dar um beijo na namorada em público, mas se forem dois homens, valha-nos Deus ou que o façam em casa) e com isso contribuir para mudar o que é publicamente aceitável. Fazer isto implica lutar por um reconhecimento público de determinados comportamentos. Ora ter orgulho é um elemento fundamental desta luta. Ter orgulho é afirmar que uma identidade não é um facto mas uma conquista (os escravos passaram a ser pessoas porque lutaram por isso, a sua humanidade não era um simples facto), que tem de ser afirmada publicamente, contestando e rejeitando a exclusão/vergonha/humilhação a que certos comportamentos estavam expostos. Por isso, conquistar e lutar por uma identidade inclui elementos de coragem e mérito. "Ser" é uma acção e não um atributo fixo. E por isso o "orgulho gay" faz todo o sentido: uma identidade é uma acção. Negá-lo não passa de uma mistificação ou de uma tentativa pouco honesta de naturalizar uma determinada ordem que não o é. Admito que os tempos de paz e tranquilidade tenham acabado para as Patrícias Lanças deste mundo. Mas é a vida, habituem-se.

adenda: agradeço a uma leitora a correcção. Deus não é deus. Aqui ficam as minhas desculpas

Momento Marxista da manhã

"O cidadão comum. A expressão «cidadão comum» é redundante e estúpida. Os cidadãos, todos, são comuns porque essa é justamente a condição e a propriedade da cidadania"

Nicky Florentino, Albergue dos Danados

Parece-me que o Nicky se esqueceu da diferença entre democracia formal e real. A primeira olha sempre para cima ou para lado nenhum, que é onde está a segunda.

Wednesday, August 08, 2007

Protejam as criancinhas

O Carlos G. Pinto ficou muito perturbado por saber que crianças gays entre os 11 e 16 anos -devidamente acompanhadas pelos pais- participaram numa marcha que pretende sensibilizar a população em geral para a humilhação que atinge determinado grupo social. Como a diferença entre hetero e homo é o sexo -escreveu o carlos num post do womenageatrois- a gay parade só pode servir para excitar as mentes de quem nelas participa ou deformar a sensibilidade das (obviamente) assexuadas criancinhas segundo a agenda perversa do lobby gay. Ai o sexo, o sexo; esta gente mal ouve falar nisso, perde o tino e só vê labaredas.

Para além do que a Shyzo e o Tiago Mendes já escreveram, gostaria de acrescentar dois pontos:

1) se o objectivo destas parades é a sensibilização social para certas formas de humilhação, incluir crianças pode fazer todo o sentido. E faz sentido, sobretudo, porque continua a existir o mito de que as crianças são assexuadas - a imagem de crianças gay só pode ser uma criação diabólica do já mítico lobby. Podemos defender que as crianças devem viver em ambientes tendencialmente assexuados (uma impossibilidade?); agora, fingir que, por participarem em determinadas marchas, as crianças estão a ser expostas a uma realidade que desconhecem, ou que não lhes diz respeito, é viver num mundo de fantasia -e de cegueira.

2) O post do Carlos e a reacção histérica que revela desautorizam qualquer juízo que os pais daquelas crianças possam ter feito em relação à participação dos seus filhos na dita parade. Não interessa se existem histórias particulares de crianças humilhadas, ou coisa que o valha. A primeira coisa que lhe vem à cabeça (ver o comentário do carlos ao post do Tiago Mendes) é malta de cabedal e poses obscenas. Ora isto diz mais do Carlos e dos seus preconceitos do que da parade.

para i,

"Heidegger frequently uses the term "thrown." We are thrown into Being. And, I'd add, we are thrown into the hotel, thrown into its impersonal, public muddle.

We turn away from work as a means of "taking care," says Heidegger. To check into a hotel: this, too, may be a mode of taking care, of refusal.

Hotel is a method of "not-staying." Curious, we stray: we enter the euphoric state of "never dwelling anywhere.""

Via enowning, um blog exclusivamente dedicado ao pensamento de Martin Heidegger

Tuesday, August 07, 2007

Cartão vermelho

Pára tudo: o famoso Política Operária revoltou-se com o acordo entre BE e PS na câmara de Lisboa. Mas que raio é a Política Operária e porque é que têm direito a um espaço no jornal Público que não o correio dos leitores?

adenda: editorial do movimento política operária: "Fazemos parte de um movimento operário lutador mas privado de independência política, afogado em preconceitos pequeno-burgueses(...)É preciso que a classe operária tome finalmente em mãos a tarefa que a História lhe destina e de que mais ninguém se pode encarregar: pôr fim ao capitalismo, o ocidental e o oriental, criar uma sociedade de produtores livres e iguais – o comunismo..."

uma das coisas que me surpreende no Ulrich - personagem principal do Homem sem Qualidades - é a ausência de desespero ou inquietação perante um mundo sem qualquer ordem ou unidade. A playful irony que joga com o caos sem qualquer tipo de nostalgia romântica pela unidade (mítica) perdida é algo que me transcende.

Monday, August 06, 2007

Demência Cega

"Como referiu Inês Zuber, a RPDC (vulgo, Coreia do Norte) é um país extremamente organizado. Contudo enfrenta vários problemas económicos como a fome, os problemas energéticos e dificuldades no acesso às novas tecnologias. Os maiores problemas são as sanções económicas que pretendem bloqueá-los a nível económico e financeiro"

trecho de uma notícia do Avante sobre um encontro de jovens do PCP para discutir (?) a Coreia do Norte

Vejo que aquele "lapso" de Bernardino Soares está institucionalizado no PCP. E dei por por mim a pensar que o secretismo e a falta de transparência deste partido não são mais do que uma forma de ocultação e perpetuação da patologia que infelizmente continua endémica por aquelas bandas.

Descartes e Arroja

"Em Portugal e Espanha, a cultura da intelectualidade passou a ser predominantemente a cultura cartesiana e adolescente do Porquê?, com a sua rejeição do passado, a sua contestação da autoridade, a sua insatisfação permanente, o seu apelo permanente à mudança (modernização) e, no limite, à revolução. Nenhum pensador como Descartes desferiu um golpe tão profundo no pensamento católico e nos países sujeitos à sua influência. Nem a Igreja Católica nem estes países conseguirão algum dia levantar-se de novo sem, primeiro, derrotarem Descartes e a cultura cartesiana do Porquê? que obtém respostas tiradas da cabeça de cada um, às vezes ainda na cama, como quem tira coelhos da cartola"

Pedro Arroja, Portugal Contemporâneo


Ao contrário do que Pedro Arroja defende, o principal problema de Descartes não foi o de instituir a reflexividade crítica. O racionalismo do porquê não pode ser combatido pela tradição - entendida como uma autoridade que exige obediência. Gadamer - um dos primeiros a tentar reabilitar a tradição de uma forma não reaccionária- não pretendiam combater a dúvida nem criticar Descartes, censurando-o por ter aberto a porta a hordas revolucionárias. O que Gadamer fez foi criticar a forma como Descartes e outros filósofos modernos entenderam a dúvida como método crítico, questionando o papel fundador de uma razao auto-suficiente. Ou seja, ele não colocou a tradição contra a liberdade crítica e emancipadora da razão, reafirmando a dualidade que Descartes introduziu e que o (aparente) reaccionarismo de Arroja parece querer combater. Ele tentou transcender essa dualidade sem cair numa critica que só existe na relação negativa com aquilo que nega (algo que só destroi) ou no seu inverso, numa cristalização dogmática e rígida onde uma unidade mítica chamada A Tradição assegura a estabilidade da Civilização. Nem revolução nem reacção, mas a tentativa de reconhecer que não podemos começar do zero (a recusa da revolução total) nem divinizar um passado (sempre) mítico. O que Gadamer tentou fazer foi apenas mostrar o elemento de dependência e diálogo que existe mesmo quando pretendemos criticar ou questionar algo. Para Gadamer não existem porquês abstractos aos quais devemos respostas que de alguma forma misteriosa tranquilizem o espírito crítico. E entre isto e o reaccionarismo implícito de Arroja há uma diferença significativa.

Boas notícias

O Luís M. Jorge voltou

Direita de que gosto

"Se Sarkozy o fez, fez bem. Mas tivesse Zapatero libertado os reféns, ao mesmo tempo em que por coincidência vendia 268 milhões de euros de tecnologia espanhola ao amável regime líbio, os fraldiqueiros do costume não se calariam: "oportunista politicamente correcto", "invertebrado" e "aldrabão".
Depois viriam as habituais ladainhas de costureira excitada sobre a virilidade do charuto de Churchill e a rectidão dos bigodes de De Gaulle."

FNV, Mar Salgado

Friday, August 03, 2007

o post que se segue também se podia chamar "um artigo de que gostei e que me levou a um livro que ando a ler, triangulado com um post de um amigo meu que, por sua vez,me levou a uma reflexão com relações realmente existentes com outras eventualmente espúrias"

Musil: um post-modern ironist e mais umas outras coisas que talvez venham a propósito

"The Musilian posture is fraught with contradictions. In the novel, he hails the essay's capacity to regard ''a thing from many sides without comprehending it wholly, for a thing wholly comprehended instantly loses its bulk and becomes a concept.'' For Musil, concepts were dogmatic, totalitarian, destructive of every living pattern

(...)

Ulrich, the hero of ''The Man Without Qualities,'' possesses so many attributes - professional, national, political, cultural - that they conspire to dissolve him unless he acquires ''the passive illusion of spaces unfilled.'' This capacity for making yourself a receptacle for experience, rather atypical for a male protagonist, allows him to regard his public lives with baffled amusement: grim, moralistic but never entirely serious. The playfulness - and the transcendence -reside in the freedom from concepts.

(...)

Yet a theoretical liability frees the essayist's talent. As he strolls among his several selves, Musil becomes a flaneur of thought. He loiters among impressions as much as objects, regarding them with equal amplitude and precision

(...)

''A Man Without Character'' provides an entry into the similarly named novel. Its hero is so multifaceted that, when asked to describe his fiancee, he replies, ''From the point of view of which character?''

Artigo completo aqui (via memória inventada)

O artigo que o Ezequiel escreveu no 5 Dias, cruzado com este artigo, misturaram-se e levaram-me ao Homem sem Qualidades, a obra prima de Musil. Ora bem, este livro não é bem um livro; é parte de uma vida transformada em literatura e colocada em papel. O Homem sem Qualidades reflete sobretudo a impossibilidade de nos relacionarmos com o mundo enquanto totalidade. Depois de uma fase inicial de sucessivas tentativas, falhadas, de procurar um sentido para o mundo e para a vida, Ulrich - um (anti) heroi, e personagem principal do livro- representa uma espécie de inversão de Proust. Em vez de procurar uma unidade (re)construindo o passado , Ulrich (Musil?) constitui-se como uma afirmação prática dessa impossibilidade, e a celebração irónica de um perspectivismo infinito e irreconciliável. Tudo isto reflecte-se numa personagem que se transforma, necessariamente, num homem sem atributos definidos -sem um centro que possamos designar de carácter. Se o autor Musil é um "flaneur" do pensamento, Ulrich é um flaneur de si próprio.

O que é que isto tem a ver com o artigo do Ezequiel? Tem tudo. Ou melhor, se estivermos para aí virados, pode ter alguma coisa. A realidade que o Ezequiel descreve, representa a tentativa ou resistência de alguns a serem flaneurs intelectuais. Aquilo que alguns gajos das relações internacionais pretendem é não deixar de considerar o mundo como uma totalidade, pensável e representável enquanto tal. Porque sem isso a sua disciplina académica perderia o estatudo de "Ciência", passando a confundir-se com mera literatura. E isso eles não podem aceitar.
Já não percebo se este post faz sentido. Está imenso calor e é sexta feira. E estou quase a deixar de ter trinta anos, coisa que muito me incomoda.

insuficiências verbais

Não sei bem se por estupidez ou por sinceridade, ou ambas, no Público de hoje (sem link) o Quixote de Gaia declara (confessa?) que só sabe conjugar o verbo "ganhar". Ficava-lhe bem aprofundar os conhecimentos de gramática, sempre evitava o ridículo e moderava o autismo. Porque o ensino para adultos deve ser ministrado em doses moderadas, eu sugeria-lhe que começasse pelo verbo "mancar". E como o tempo escasseia, o melhor é saltar directamente para a segunda pessoa do modo imperativo: manca-te (Menezes)!

(cartoon indevidamento retirado do arquivo da new yorker)

Thursday, August 02, 2007

Optimismo sem consolação

SAIR

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

António Cícero. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.77.

Gosto de gostar de pessoas que afirmam, exultantes, que "tudo é gratuito" e que as coisas "nada dizem". É libertador - uma espécie de Caeiro entusiasmado. Só não sei se resulta, e dou por mim a desconfiar da sinceridade de quem escreve assim. E disto já não sei se gosto.

Grave

Concordo com tudo o que se tem escrito sobre o caso da demissão da directora do MNAA no 31 da armada. Mas o que me deixa verdadeiramente perplexo é o autismo e irracionalidade prepotente revelados pela actuação da tutela. É que invocar a falta de sintonia com a política do ministério e ignorar o aparente sucesso das pessoas que vão demitindo não constitui qualquer tipo de justificação para as medidas tomadas; aliás, se alguma coisa me suscita dúvidas e carece de justificação deviam ser as sacrossantas políticas em nome da quais projectos de sucesso e as pessoas por eles responsáveis tem sido postos em causa.

Wednesday, August 01, 2007

Imperativo incondicional e urgente para a institucionalização das relações turisticas ao mais alto nível...

mesmo -e quem sabe se sobretudo- ao arrepio das vontades dos agentes responsáveis pelo efectivo desenvolvimento dessas mesmas relações

"Artigo 1:

As partes (os governos) desenvolverão a cooperação na área do turismo com vista a um melhor conhecimento entre os dois povos e no total respeito pelas realidades históricas, culturais e sociais de um e outro país"

nota: As partes envolvidas neste grandioso e ultra-prioritario projecto são Portugal e um conhecido paraíso de férias que termina em "istão".

Tuesday, July 31, 2007

Grelhas de análise

me:

Todo e qualquer estruturalismo dogmático não confirma; ele apenas reafirma. A posição que eu atribuo ao RAF no post anterior assemelha-se ás críticas que tu em tempos fizeste a certas formas de psicanálise. Podemos considerar a relação entre um interprete e uma determinada realidade como sendo análoga a um contexto psicanalítico. Assim sendo, e simplificando, o interprete traz consigo um conjunto de preconceitos através dos quais interroga a realidade; mas se não existir uma dialéctica productiva entre os dois -se os preconceitos do interprete se mantiverem exteriores ao próprio processo interpretativo-, então não se está verdadeiramente a interrogar nada. Alguém que usa determinada realidade para reafirmar a sua posição inicial está apenas a instrumentalizar e não a dialogar. Se a análise serve apenas para bater na mãe, ela não nos serve de muito.

Encontrar aquilo que se procura

O RAF escreveu dois posts a denunciar o Estado Social como a causa de todos os males -uma novidade refrescante na nossa direita blogoesférica. Eu, mais do que rejeitar a simplicidade redutora do raciocínio, desconfio de exercícios intelectuais que me parecem apenas reproduzir as fixações do próprio autor. É que a realidade causal que o Rodrigo descreve não é mais do que uma interpretação feita por alguém para quem o Estado Social já é -por definição- aquilo que ele pretende provar. E assim não vale.

nota: admito que o texto que o RAF menciona possa conter argumentos em favor de uma tese onde a conclusão faça algo mais do que reproduzir as suas premissas iniciais. Mas tendo em conta as referências intelectuais não refutáveis do Rodrigo, tal parece-me pouco provável

Monday, July 30, 2007

Da sublimação

sublimação | s. f.
derivação fem. sing. de sublimar
sublimação

Psican.,
mecanismo de defesa através do qual condutas instintivas e motivações não aceitáveis são substituídas por formas de actividades socialmente aceitáveis;
fig.

O pequeno líder foi cortejar o apoio do grande líder

rastejar | v. tr. | v. int.
rastejar

Conjugar


v. int.,
andar de rastos;
estender-se pelo chão (falando-se de plantas);
viver em condição humilde;
ter sentimentos baixos;
ter uma atitude humilhante.


Friday, July 27, 2007

Jogo de cintura

Reacções a "Ser e Tempo"

Steiner sobre Heidegger, em versão shot

momento josé sócrates

"foda-se!"

como terá dito Martin Heidegger enquanto se amofinava por The Nothing (substantivo) Nothings (tentativa de verbo) e isso o apoquentar de tal maneira que o levou a escrever uma carrada de livros sem justificação onde ele acaba sempre por dizer a mesma coisa. E eu que sou parvo, fui na marosca e confundi profundidade com obsessão maníaca. Lição: não (tentar) ir até ao fundo.

Thursday, July 26, 2007

revolucionário estival

Letargicamente, o jovem revolucionário decide deslocar-se a uma ala oposta sem casaco.

Wednesday, July 25, 2007

Duas visões (a mesma luta?)

"Não embarcava em balelas sobre a morte e sobre Deus nem em obsoletos céus de fantasia. Só havia os nossos corpos, nascidos para viver e morrer nos termos decididos pelos corpos que tinham nascido e morrido antes de nós"

Philip Roth, Todo-o-Mundo

And death shall have no dominion.
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.
And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.
And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.
Dylan Thomas

Contra-fé

Num post no Cachimbo de Magritte, FCG dedica-se à prática da acusação da acusação. Contra as forças irracionais que denunciam as ambições prometeicas da humanidade e que crêem irracionalmente numa espécie de apocalipse ecológico, FCG parece defender implicitamente o seu oposto, um optimismo igualmente crente e sem justificação.

Da mesma forma que FCG já estava à espera que algum jornalista reagisse instintivamente a anunciar o fim dos tempos, eu também já sabia que FCG sabia e, com instintos semelhantes, que sairia a terreiro para defender a sua contra-fé. E as tácticas já cansam. Quem primeiro ousou questionar a fé progressista do iluminismo foram os romantismos e vitalismos irracinais, senhores nada recomendáveis; depois, trata de invocar Os Inimigos da Liberdade de Berlin, livro que -na opinião de FCG- desqualifica automaticamente qualquer posição que se aproxime desses senhores tenebrosos. E pronto, está (re)-encenada a batalha entre as forças do bem e do mal. Resta-nos tomar partido e continuar esta tradição bélica.

O que FCG não diz é que há uma alternativa a esta união dialéctica dos opostos. Sem cair em nenhum dos extremos, sem necessitar de angelizar diabolizar a Humanidade (será que FCG concorda com aquele artigo mítico do André Abrantes Amaral em que se sugere que o pessimismo é marxista?) o melhor é abandonar a(s) crença(s) e escutar o que vai dizendo a ciência. Ora, se a ciência sugere cautela quando estamos na presença de casos particulares (os tais soluços do sistema complexo que FCG menciona), ela também parece ser mais ou menos unânime no reconhecimento do aquecimento global e na responsabilidade causal da humanidade neste fenómeno. Por muita diabolização negacionista que FCG pratique, se existe algum consenso nestas matérias, ele aponta claramente neste sentido. Quando até a revista Economist se dedica a estes temas, é difícil invocar ideologias tenebrosas como estando por detrás do embuste. Para terminar, acho curioso que FCG consiga acusar os crentes sem recorrer a um único argumento científico para defender a sua "tese".

Tuesday, July 24, 2007

Aaaaaaaaaaaaaaah, siiiiiiiiiiiiiii, maaaaaaaaaaaaas, mi gusta


"I'm all ears," I said, confident that the sexual irony in my inflection wasn't wasted.

from "thinking" to "technology"

“Western civilization, in its best sense, was born with the promenade,” Finkielkraut said, noting that thinkers such as Aristotle, Heidegger and Rimbaud all were walkers. “Walking is a sensitive, spiritual act. Jogging — it is management of the body.”

aqui

Quadros que respiram


"In his large floating rectangles of color, which seem to engulf the spectator, he explored with a rare mastery of nuance the expressive potential of color contrasts and modulations"

Monday, July 23, 2007

Estranged


Deste filme, para além da belíssima fotografia e de uma musiquinha agradável, fica-me, sobretudo, a incompreensão e o reconhecimento de que eu não entendo nem me consigo relacionar com aquele mundo e aquela gente. A devoção sacrificial absurda (para mim) a entidades transcendentes como pátria, o imperador e outras que tais, permanecem (para mim) ininteligíveis. Sobre a Religião, Richard Rorty dizia que era uma espécie de história (opcional) que a humanidade tinha decidido contar sobre si própria e que o deixava indiferente. A minha relação com a maioria das personagens deste filme é semelhante. Não é tanto que estejam erradas; simplesmente, não as entendo.

A ler

"Contudo, como berlinense e alemão, identifico-me com a cidade e a sua história. É a minha. E quando visito o museu, faço o neste sentimento de pertença, não com culpa que só podia ser individual, mas com a responsabilidade que é colectiva e advém desta pertença. Faço o tanto como descendente dos assassinos como das vítimas, que eram – dado de barato a diferente época histórica - os meus concidadãos. E entristece-me não só o sofrimento das vítimas, mas também a irremediável auto-mutilação que a Alemanha e a minha cidade cometeram a si próprios"

Lutz, Quase em Português

animando manhãs alheias

Registos literários que não prometem

Mendes&Menezes dá para nome de sociedade de contabilistas. Tudo o resto é mediocre

Genealogia de uma compulsão


"the primeval man was round, his back and sides forming a circle (...) I have a plan which will humble their pride and improve their manners; men shall continue to exist, but I will cut them in two and then they will be diminished in strength and increased in numbers (...) he would thus learn a lesson of humility. After the division the two parts of man, each desiring his other half, came together, and throwing their arms about one another, entwined in mutual embraces, longing to grow into one, they were on the point of dying from hunger and self-neglect, because they did not like to do anything apart; and when one of the halves died and the other survived, the survivor sought another mate, man or woman as we call them, being the sections of entire men or women, and clung to that. They were being destroyed, when Zeus in pity of them invented a new plan: he turned the parts of generation round to the front, for this had not been always their position and they sowed the seed no longer as hitherto like grasshoppers in the ground, but in one another; and after the transposition the male generated in the female in order that by the mutual embraces of man and woman they might breed, and the race might continue; or if man came to man they might be satisfied, and rest, and go their ways to the business of life: so ancient is the desire of one another which is implanted in us, reuniting our original nature, making one of two, and healing the state of man. Each of us when separated, having one side only, like a flat fish, is but the indenture of a man, and he is always looking for his other half"

Excerto do discurso de Aristofanes, Symposium

Friday, July 20, 2007

Diane Arbus

Estou feito



...
You hear me
I put a spell on you
Because you're mine
...

A elegia do afia

Henrique, estás a ficar velho

Racismo ou sobranceria colonial

E eu a pensar que sobranceria colonial requeria sempre uma boa dose de racismo. Assim de repente, tenho alguma dificuldade em imaginar um colonialismo que tenha existido sem o suporte de teorias rácicas que o legitimassem. Tirando este pormenor, o post é de antologia.

Do Not Go Gentle Into That Good Night

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light

Dylan Thomas

Thursday, July 19, 2007

Diz que é uma espécie de esquerdismo

"Aproxime-se esta declaração da de Robespierre:
Aqueles que não acreditam na imortalidade da alma fazem justiça pelas próprias mãos"

Baudelaire, Meditações

anti-magritte involuntário

"como é sabido e conhecido, isto é um passeio"

chamada de atenção de um polícia para um motard que parava o seu veículo num passeio

Hoje talvez tenhas sonhado com isto

Linha Maginot

O artigo da Helena Matos no Público de hoje é de uma desonestidade intelectual sem limites e um exemplo de má fé despudorada. Na sua quota do ping-pong ela recorre à estafada estratégia da desqualificação por associação criminosa, distorcendo hiperbolicamente a posição do Zé. Ela cria um straw man totalitário e, como amante da liberdade, só lhe resta denunciar o monstro. Começando por chamar a atenção para a proposta de educação cívica do programa do candidato apoiado pelo BE, ela rapidamente salta para um delírio especulativo que acaba or ser o verdadeiro tema da sua coluna. Dedicando menos de um terço da sua coluna ao vereador do BE, rapidamente somos levados ao PREC e a comités de reeducação revolucionários dedicados a reciclagem das massas ignaras. O cenário é sinistro, e qualquer pessoa de bem não pode deixar de se arrepiar com as verdadeiras intenções de Sá Fernandes, que a Helena Matos tão dliligentemente (obrigado Helena) nos revela.
O que a Helena Matos faz é impor-nos uma linha maginot que separa os liberais (bons) do resto (sinistro), a liberdade ou o gulag. Sugerir que uma democracia liberal tem condições mínimas de funcionamento (é curioso que ela nada diz sobre a escolaridade obrigatória) e que pode fazer sentido, sem derivas totalitárias, abordar a questão da educação cívica em determinados contextos (alheamento político da população, abstenção crescente) são questões que ela se recusa discutir. A má fé de Helena não reside apenas na analogia forçada, mas na sua recusa em reflectir sobre as preocupações que estão a montante das propostas do BE. O erro poder ser meu -nada de razoável, jamais, poderá vir desta gente sinistra- mas em vez da barricada ideológica, uma tentativa de compreensão -desvio ideológico perigoso para os (neo-)ortodoxos como Helena?- das preocupações dos outros não lhe ficava nada mal.

Wednesday, July 18, 2007

Certeza de si

Contra a noção de auto-consciência herdada de Descartes, fundada no desejo (e nunca mais do que o desejo) da certeza imediata de si, e que dominou a filosofia até Kant, Hegel propõe uma noção trágica da consciência, fundada na negação e superação temporal deste ideal. A dialéctica da auto-consciência não é mais do que o amadurecimento histórico do ego que, dolorosmente, precisa de se negar para chegar a si mesmo.

Desobjectivando

Scrabble, David Hockney

'I have been aware of the constrictions of [single-viewpoint] perspective for a long time.'

Sobre siglas vazias

Para o Tiago Mendes:

"An 'empty' or 'floating signifier' is variously defined as a signifier with a vague, highly variable, unspecifiable or non-existent signified. Such signifiers mean different things to different people: they may stand for many or even any signifieds; they may mean whatever their interpreters want them to mean"

"
Shakespeare famously referred to 'a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing' (Macbeth V, iii)

E já agora, acrescenta-se a evolução do signo/imagem sugerida por Baudrillard

    These would be the successive phases of the image:

      1. It is the reflection of a basic reality.
      2. It masks and perverts a basic reality.
      3. It masks the absence of a basic reality.
      4. It bears no relation to any reality whatever: it is its own pure simulacrum. (Baudrillard 1988, 170)


Iletrados

"O essencial consiste num facto palpável para quem não for completamente iletrado e tiver lido um ou dois bons romances ao longo da vida: a dimensão menoríssima da sua obra, que um certo talento – é um mau escritor talentoso"

Paulo Tunhas, num post sobre José Saramago

"Leio em português com certa fluência. Gosto muito de José Saramago, somos bons amigos, embora eu não concorde com a posição dele em relação à guerra contra o terrorismo"

Harold Bloom, alguém completamente iletrado - falecido